Quem vem lá?

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Faz-me rir





Beijo me liga


- Parabéns pra nós dois. Tim tim.
- Ao que fomos, ao que somos ou ao que seremos?
- A tudo.
- Não, chega, desliga a merda dessa música.
- Por quê? É nossa música.
- Não tem mais nada de nosso aqui. Vai. Mas vai em silêncio. Pisa devagar, não faz estardalhaço. Não me acorde de novo à toa e nem finja sentir muito por isso.
- Mas eu sinto muito, de verdade, tá vendo, eu só queria brindar.
- Não atire em meus ouvidos palavras vãs para renunciar à sua participação no grande empurrão ao fundo de tudo.
- Não to querendo...
- Mas se prefere assim por mim também não faz diferença alguma, continue jogando o velho jogo dos perdedores, onde todos jogam, todos tem culpa e todos perdem no final. Cansei do seu jogo, e aceito perder de W.O, deixar a torcida atônita e não oferecer as próximas cenas patéticas desse circo de horrores pra quem já comprou a pipoca.
- Não é simples assim, você sabe, existem muitas mágoas.
- Fique você aí nessa arena. Fale sobre suas culpas e mágoas pra quem tiver tempo. Despeje sua raiva infanto-juvenil no ouvido de sua professora primária quando encontrá-la na rua e conseguir alcançá-la depois que ela fingir que não te viu.
- Vou sumir.
- Isso. Mude de calçada, de cidade, de planeta, mas faça em silêncio. Se hoje sou tomado por raiva, vai passar. Se hoje acordei com vontade de veneno, essa vontade vai passar. São sentimentos necessários, determinantes. O grande impulso em direção contrária ao ócio, ao lodo e a areia movediça em que me encontro. E não pretendo voltar a pisar aqui.
- E tudo o que passou?
- Olhando sempre adiante, sempre em frente, nunca para trás. Vou e vou mais forte.
- Ah você vai?
- Eu vou. Mas não consigo ir em silêncio.



domingo, 10 de maio de 2009

Desengano


Era uma menina que só se enganava. Não era por mal, e ela era sempre a última a perceber. Isso porque não fazia nada sem a obstinação de que era certo, ia de coração, não importa o que fosse. E se enganava. Um dia pegou o metrô, embarcou no Ana Rosa e ficou ali reparando no casal que se beijava com a marmita vazia no colo, na criança de Black no cabelo, na calça xadrez do moço que entrou... Estranhou quando ouviu que a próxima estação era Conceição. Estava do lado errado, queria ir pro Tucuruvi. Desceu afobada e foi pro lado certo. Sorriso amarelo, sabia que sempre se enganava. Mas se aceitava assim e não gostava quando as pessoas diziam que ela era enrolada, perdida. Ela se enganava e fazia isso de coração. Fim de tarde de outono e ela resolveu que ia pra praia, pegou a Anchieta, abriu a janela ao som de Cat Stevens e segurou o chapéu pra não voar. Mas as placas indicavam o Piraporinha e logo ela viu que se enganou de novo. Voltou e foi pro lado certo falando todos os palavrões que sabia e inventando mais alguns, mas depois riu porque ela era assim mesmo. E de manhã, o cinza predominou e não dava praia. Ela resolveu tomar um pingado, como fazia todas as manhãs. E estava feliz, porque até então era uma pessoa no meio da cozinha, depois de uma noite muito bem dormida, ainda de pijama, uma revista de moda na mão e um pingado na outra. Ela ficava feliz com essas coisas. Mas bastou o primeiro gole para o sal inundar sua boca e ela perceber que confundiu os potes e salgou o matinal. A outra metade do gole saiu pelo nariz. E ela seguia assim, feliz antes do engano. Enquanto acreditava estar no caminho certo, que seria agradável o sabor das coisas, estava bem e era isso que importava. Ela não gostava das críticas e preferia acreditar no seu coração. Mesmo quando se enganava. E como se enganava.... A menina.
ps, na foto: cena típica. Parada no trânsito, perdida e sem gasolina.

sábado, 9 de maio de 2009

Heranças





Há 30 anos, não muito longe daqui, no bairro do Bexiga, uma morena muito gata iria prum boteco afogar as mágoas do fim de um namoro de oito anos com mais duas amigas. No bar havia um cabeludo mundrungo, com cara de quem voltou a pé do Woodstock. Só que o cara era bom de papo. E pensava alto, o que era melhor. Quando as moças resolveram ir embora, ele puxou a mais bonita pelo braço, pediu o telefone. No dia seguinte ele ligou e marcou um encontro. Ela tinha perdido a prática de encontros, pintou as unhas de laranja. A primeira frase que ele disse foi:
- Que esmalte horroroso.
A segunda não deu tempo porque ele tascou um beijão na boca dela. Depois de seis meses eles se casaram. Ele morava no Rio de Janeiro e veio pra cá. Compraram uma Brasília, um projetor e eram felizes vendo slides, ouvindo Chico Buarque, bebendo vinho bom quando dava e vagabundo quando não dava.
Dessa união surgimos eu e meu irmão, Pablo. Fomos crianças muito criativas e unidas. A morena gata e o hippie ficaram juntos por 17 anos. No dia do casamento fizeram um bolão, aquele que chutou mais alto, apostou que o casório duraria seis meses. Como dizer que não deu certo? Se durante esses 17 anos, nunca vi um desrespeito por parte dos dois, se eles se separaram, mas todos os Natais passamos juntos, com os namorados deles, e quem mais for querido para nós e tiver afim de festa.
Quando eu estava pra nascer, meu pai apareceu com um radinho de pilha e colocou um som pra minha mãe se distrair. Era “Drão”, do Gilberto Gil, até hoje ela chora quando escuta, considera “a nossa música”. A letra fala sobre a transformação de um amor, não no fim, como precipitadamente interpretamos a palavra “separação”. Meu pai e minha mãe comprovaram que o amor se transforma. O tempo inteiro. Só acaba se a gente faz dele indiferença, rancor, mas ainda assim se transforma. E acho que essa foi umas das lições mais importantes que a minha mãe me ensinou. Tudo bem que ela também me ensinou muitas músicas de palavrão, como quando começava a musiquinha do Fantástico e ela cantava gargalhando, no mesmo ritmo:
- É fantástico! Caralho de plástico! Boceta de elástico! É o cu da vida!
E para o dia das mães, armaremos um churrasco da pesada aqui em casa. Do jeito que ela gosta: Com caipirinha, violão, e banana com sorvete de sobremesa. Meu pai também vem. Nós vamos celebrar mais uma vez as transformações da vida.




quinta-feira, 16 de abril de 2009

Linha da vida


- É... A sua linha da vida é super fraquinha e curta. Isso significa que sua saúde pode ser frágil ou então que você vai morrer cedo mesmo.
Fecho a mão rapidinho e a seguro com a outra. Mas que grande filho da puta esse meu amigo. Ele falou que sabia tudo de quiromancia (ler as mãos). Até então eu estava gostando, achei até que tinha a ver. Falou que eu era muita racional (tinha uma tal de linha da consciência que é super retinha); que eu teria poucos amores; que teria duas profissões simultâneas (até aí todo mundo sabe que eu sou jornalista e queria ser roteirista. Mas também posso fazer docinhos para fora); Até que me veio com esse papo que ia morrer cedo. Mal sabia ele que essa era uma nóia recorrente. Por várias vezes eu achei que poderia sentir a iminência da minha morte, como se ali, na próxima esquina ela me esperasse.
Não consigo me imaginar velhinha, com netos, cabelo roxo, cheirinho de pancake. Eu paro de imaginar depois de uns 40 anos, sei lá por que! E toda vez que fico sabendo que alguém morreu, fico pensando se em algum momento essa pessoa imaginou que isso aconteceria, se colocou uma cueca apropriada, se a meia não estava furada, se teve algum sonho alarmante no dia anterior... Eu tenho muito medo de não existir mais. De olhar aquele menino pelo retrovisor do carro na hora que eu vou embora e ser a última vez. E de causar um trauma na vida das pessoas. Dos meus amigos ficarem confabulando como foi a nossa última conversa e esse texto ir parar naquela comunidade de gente morta no Orkut.
Por outro lado, algumas coisas simples me fazem sentir tão viva que fariam valer a vida toda se ela findasse agorinha. Como quando estou dentro do carro e rola uma música que eu gosto... Aumento o som, abro a janela, e com o vento no rosto me identifico com a frase do Vinícius de Moraes que diz que “são demais os perigos dessa vida pra quem tem paixão”.
E se o picareta do meu amigo estiver certo e eu realmente morrer cedo? Com certeza eu preferiria acrescentar vida aos anos do que anos à vida. Eu poderia dizer que me diverti à beça, que sempre segui meu coração e procurei fazer o bem sem olhar a quem. E não é que teria valido a pena??
Por um lado é até bom não fazer tantos planos, então. Como vou saber se estou no meio, no começo ou no fim de tudo? Só posso dizer que torço para que meu passado seja curto diante do meu futuro, mas que por via das dúvidas todos os dias eu faço valer a pena.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Show me your blog spot!!




É isso aí gente boa... Hoje apresento o local onde escrevo para o Janelas de Marina. Como podem perceber, o cafofo é tão mundungo quanto eu. Mas é simpático e é aqui que eu vivo. Escrevo na sala, onde também ficam a TV, o telefone, meu cachorro e minha família usando coisas ilícitas. hahaha, mas eu sou feliz assim, como podem ver, e é aqui que eu escrevo. Não posto essas fotos à toa, a estória começou com as meninas do blog Two Way Monologue. Elas elegeram a Camila, do "Parece filme mas é vida mesmo" e ela me elegeu. Eu demorei mas coloquei as fotos porque considerei isso uma corrente do tipo "faça isso ou perca seu emprego e uma pomba cagará na sua cabeça hoje mesmo". O Tom Zé- cão vaca, está sempre por perto, ele me inspira e também gosta de cerveja, por isso a gente se dá bem. Achei bacana participar desse lance de mostrar onde você escreve pro blog, primeiro porque acho que é uma curiosidade geral, e outra porque eu sempre acompanho o blog da Camila e se ela quis que eu fizesse issó é sinal de que ela acompanha o meu também. Janelas de Marina só me traz alegria. Ah!! e agora preciso continuar a tal corrente né? Pois bem, aí vai como funciona e os escolhidos:
Show me your blog spot:

1. Uma vez escolhido poste uma foto da onde vc bloga;
2. Sinta-se à vontade para nos contar um pouco sobre o seu espaço, detalhar alguns itens. Ou não.
3. Coloque um link pro post original. Quero ver onde isso vai chegar!!
4. Escolha outro 5 blogueiros, que devem por sua vez, mostrarem os lugares onde eles blogam;
5. Se vc for escolhido e não participar...hummm... vc vai desenvolver uma estranha alergia a repolho. Serio!
Pra continuar eu escolhi os seguintes blogs:
- Bagunça funcional
- Pilotem suas cabeças
- Minhas falsas verdades
- As tolices de Yuri Braga
- Mendez contra Mendez
E quem mais quiser participar!!
Vamos lá macacada!! Escondam a bagunça no armário e mostrem onde escrevem!!


segunda-feira, 23 de março de 2009

Crônicas de um amor bobo


Tudo tem uma cronologia previsível para acontecer. Um dia você conhece alguém legal e passa a noite toda dando bons motivos praquela pessoa achar que encontrou o amor da vida dela. Ele ri de qualquer bobagem que você fala, acha seu cabelo bonito, suas unhas bem feitas e alguma graça no jeito que você dá risada. Tudo poderia permanecer nesse estado de intervalo entre o salto e o mergulho, mas não, as coisas mudam e tudo vira um jogo, onde ninguém quer dar o braço a torcer, demonstrar fraquezas. Ninguém conta que acordou no maior cagaço no meio da noite, com medo da pessoa querida morrer, depois de um pesadelo em que ela caía de um avião, empurrada por um palhaço. Aí um dia você cansa. Cansa de ficar dando bons motivos diariamente praquela pessoa acreditar em você, de se sentir uma monstra cada vez que não consegue ser uma pessoa melhor, mais sincera, menos orgulhosa, menos boca suja, menos bêbada, etc. Aí você se recolhe e segue pela vida com mestre Cartola ao fundo, dizendo que de cada amor tu herdarás só o cinismo. Crê que está fazendo a coisa certa, e lembra que a pessoa assoviava pelo nariz pra respirar, fazia barulho pra comer, tinha a meia furada e que você se livrou de uma. E como isso é cínico.
Até que um dia você conhece outra pessoa, ou reencontra a mesma, e começa tudinho de novo. Um eterno de javu, música no repeat, Gene Wilder estrelando “Dama de Vermelho” na sessão da tarde. Ou não. Ou você pode tentar o caminho da verdade. Uma grande pessoa me ensinou esse termo, que consiste em não fazer jogo de cena, deixar de cara as máscaras de lado e correr o risco de se mostrar exatamente como você é: preguiçoso, beberrão, repetitivo, ciumento, sonâmbulo, sei lá o quê. Isso seria não correr o risco dos velhos maus hábitos se potencializarem com o tempo, e sobressaírem sobre as coisas boas. Seria poupar que ali na frente, bem daqui a pouco, uma discussão babaca por uma opinião negativa sobre um amigo, sobre um rango, sobre o filme, gere um arranca-rabo daqueles e acabe de uma vez com seu domingo. Tentar o caminho da verdade é não fazer a linha, é agir com o coração sempre, admitir-se humano, sofredor feito um corintiano, cheio de defeitos e vontade de dar certo. E eu quero tentar.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A importância de ser cortês


Nos últimos dias, dois fatos aconteceram em direções opostas, mas que me fizeram pensar na mesma coisa: a importância de sermos corteses, gentis. Todo mundo anda muito louco, muito apressado, muito preocupado, sem tempo, sem grana, sem tesão pra nada. É muito tentador entrar nessa também, mas eu sempre acho que vale a pena olhar no olho de alguém sorrindo pra dar bom dia (principalmente os desconhecidos), perguntar se está tudo bem e realmente ouvir a resposta. Mas tenho que admitir que também saio da linha e meu lado “curínthia” vem à tona. Explico: Semana passada fui com duas amigas à lotada Vila Madalena. Era domingo e eu tinha acabado de ir à churrascaria, nem sei o que fui fazer num bar lotado de almofadinhas, mas enfim lá estava eu procurando uma vaga quase impossível de se achar. Foi quando vi um careca atarracado colocando a chave na porta do carro, abri a janela e perguntei pro homem mola do He –Man: “Ei amigo, vai sair?” No que ele, no auge de sua simpatia responde “Vou sim, daqui duas horas, aproveita e fica aí olhando meu carro”. Huahahha convenhamos que foi boa, tanto é que minha primeira reação foi dar risada, isso é: até eu perceber que o cara tinha sido um babaca à toa. Quando vi eu já estava com a janela do carro aberta xingando até a última geração do sujeito, com o dedo do meio em riste, totalmente transtornada. Mais transtornada que eu, estava a mulher do cara. Uma loira feia que veio cambaleando lá do outro lado afim de briga também. Bêbada, ela xingava sem nem saber o que tinha acontecido, e eu que sabia (e era uma bobagem) xingava também. O trânsito andou, eu fui embora, mas ainda sob efeito daquela adrenalina negativa, pensando uma porrada de merda. Eu havia me transformado numa pessoa louca como tantas outras que vejo, capaz de jogar o extintor no carro de alguém que nunca viu na vida (uma das merdas que pensei). Quando me acalmei fiquei tão de bode que fui pra casa refletir. De frente pra parede e chapeuzinho de cone na cabeça, vi que eu precisava ficar mais de boa nas horas que realmente eram necessárias. Que se de noite, nas minhas orações, eu pedia sempre paciência, sabedoria e generosidade, mais chances, portanto, eu teria de usá-las.
Em contrapartida, apresento o outro fato: Dia desses estava fazendo as unhas e nessas horas sempre fico meio quieta, pois não sou muito chegada em papo de salão e também nunca sei o que está acontecendo na novela. Mas reparei no esmalte vermelho que uma senhorinha ao meu lado estava passando, elogiei a cor e, sei lá como,começamos uma conversa animadíssima. Ela me contou que também tinha se formado em jornalismo, mas que não exercia, contou das filhas, do cachorro, enfim. Depois ela foi embora e as manicures contaram que aquela senhorinha era meio quieta e até meio ranzinza, que nunca tinham visto ela conversar daquele jeito. E eu perguntei “Ué, mas alguém já tentou conversar com ela?” Silêncio. Uns dias depois lá estou eu dando um talento na manicure de novo, quando cheguei a recepcionista falou que tinha uma “encomenda” pra mim e me apresentou um pequeno pacotinho com um bilhetinho grampeado, nele estava escrito “Para a jovem e doce Marina. De Olívia.” e dentro, o esmalte que eu havia gostado. Um novinho. Fiquei tão tocada, o céu se abriu, tinha música no ar. Pensei: O mundo ainda tem jeito. E eu também!