Quem vem lá?

domingo, 2 de novembro de 2008

Nós, os maluquinhos. Ou: Marina limpando as janelas


Para chegar aqui no blog de novo precisei me desvencilhar das teias de aranha, faz tempo que não passava por aqui. Não é nem por falta de vontade, mas a rotina mudou bruscamente e não é exagero se eu disser que não tenho tido tempo pra me dedicar a esse e a muitos outros prazeres. Mas é isso aí, logo as coisas entram nos eixos.
Explicações à parte, dia desses estava eu vasculhando e-mails antigos, que coisa essa tecnologia, antes eu adorava dedicar uma tarde inteira lendo cartas e bilhetes que guardei de pessoas diversas. Momentos diversos. Agora guardo e-mails. O importante é guardar alguma coisa né?
Grande parte dos meus melhores feitos literários são cartas. E-mails também. Sou muito chegada nessa coisa de escrever pras pessoas queridas. E hoje quero pedir licença a um amigo muito querido, Marcos Paulo Félix, para transcrever aqui uma conversa que tivemos virtualmente. O papo foi assim: Ele escreveu uma crônica, chamada “Eu e o Maluquinho”, em que discorria sobre as delícias de sua infância e sua percepção sobre a recém chegada “adultice”. Trecho: “Eu ter sido considerado um “tio” me fez recordar meus tempos de criança, bem aqueles que eu queria ser como Maluquinho.
No fim das contas acho que me tornei meio ao acaso um pouco do personagem de Ziraldo. Assim como ele virei um cara legal- pelo menos eu acho que sou- que leva a vida a cantar, mas nossa principal semelhança talvez seja essa: nós dois não conseguimos segurar o tempo, e ele sempre passa!” (Marcos Paulo, maio/2008)
Trata-se de um texto simples que me emocionou bastante e me inspirou a uma resposta, que resolvi socializar por aqui, pois falei sobre coisas que têm estado presente nos meus pensamentos hoje. E também, porque falo da minha avó Dulce, e hoje faz 18 anos que ela pediu pro mundo parar e desceu. Salve salve vovó Dulce, que saudade.

Aí vai:

Oi Marquito, querido. Cheguei de viajem hoje, eu estava em Minas trabalhando num evento. Trampo pesado, mas grana a curto prazo é sempre muito tentador. Já é a segunda vez esse ano que eu viajo para fora do estado tentando negociar o suor do meu trabalho. Isso me deixa sensível, sabe? Estar longe dos meus amigos, da minha família e de quebra conhecer gente de tudo quanto é jeito, pessoas que nunca me viram e podem pensar o que quiser de mim. Mas Deus é muito meu camarada e eu sempre consigo levar algo de bom desses "encontros" que me ocorrem. Procuro sempre, também, fazer com que todas as pessoas que cruzam meu caminho levem o que há de melhor em mim com elas, ainda que o tempo tenha sido muito curto pra isso. Mas você bem deve saber o poder que um "bom dia" dado com um sorriso verdadeiro no rosto tem de mudar um dia inteiro de alguém.Agora olha que viagem: Eu trouxe lá de Minas uma goiabada cascão que comprei de uma figura iluminada e cabelos branquinhos feito algodão chamada Norma. Não que eu fosse muito fã da iguaria, mas a simpatia da senhorinha me fez tirar os últimos trocados furados que eu tinha no bolso e trazer pelas oito horas de viagem de volta, aquele tigolinho de goiaba no colo.Agora há pouco resolvi experimentar. E era uma delícia, tinha gosto de infância, gosto de amor, de comidinha de vó. Lembrei dos doces que minha vó fazia, de como eu gostava de raspar o tacho. Lembrei do cheiro de acúcar queimado misturado ao cheiro de blush que tinha a pele daquela espanhola que adorava falar palavrão. Pensei nela como faço em vários momentos, no que ela diria sobre meus questionamentos, se seríamos amigas como éramos quando eu tinha 08 anos e ela 56. Tem hora na minha vida que eu tenho a impressão que ela tá olhando lá de cima e rindo de mim, principalmente quando fico ansiosa diante da vida, ou quando acho que sei muito. Aí ela deve rir mesmo.E como numa sincronia, sentei aqui pra ler meus e-mail e me ative ao seu. Pobre do meu coração, apertou-se. Pensei como isso é bonito, sinto o mesmo que você. Percebo que o mundo me vê como mulher e já sou muito distante de uma criança (que aliás, já me chamam de tia também). Mas aquela menininha molecona, joelho ralado, cara suja de chocolate, mora bem aqui dentro de mim. É ela que segura todas as minhas barras, é ela que me faz lembrar o quanto a vida é bonita, o quanto tudo isso vale sim, a pena. Eu também não tenho o poder de controlar o senhor tempo. Mas gosto de perceber que não me distancio muito daquilo que quando era criança, imaginava que ia ser. Não rica, com um carro como o da barbie, linda como a Xuxa, morando numa casa de boneca. Mas uma mulher de bem. Acima de tudo e sobre todas as coisas, uma mulher de bem.E acho que isso te aconteceu também, meu querido. Aquele menino que teve o privilégio de ter uma infância bem vivida, bem brincada, cheia de fantasia, cresceu e se tornou um homem com um coração gigante, capaz de sensibilizar-se com coisas simples. Sinal que aquele menino tá em você também.Todos os momentos da vida, todas as fases, têm seus fascínios. A gente tá só começando... só se dando conta... às vezes assusta. Mas a gente não tá sozinho, temos uns aos outros e esses tesouros intocáveis dentro de nós. Obrigada por me fazer pensar nisso agora, confesso que enquanto escrevia esse e-mail ri e também chorei. Eu poderia falar muito mais sobre o que tô sentindo, mas percebi depois do que você escreveu, que não preciso. Um beijão cheio de carinho pra você e tudo aquilo que te tornou quem você é. Marina

09/05/2008

4 comentários:

Aline Ahmad disse...

Ai, Marina, amei o e-mail!
Eu também guardo muitos. Somando os que recebo e os que envio tenho mais de 2 mil, embora não fique contando... Minha caixa postal está sempre bombando. Assim como as latas antigas onde guardo as cartas que recebia na adolescência. Naquela época xerocava as que eu enviava para ter o histórico completo das correspondências. Tempo bom!
Beijos de luz,
Aline***

Nanda Leone disse...

Como? Da onde? Como e da onde vem tanta inspiração?????
E esse é um dos milhares de emails que vc deve mandar...
É, chuchu... quando é fácil, é fácil. (que bela frase! eu disse TUDO! hahaha)

Espero que vc já esteja se adaptando na sua corrida e massacrante rotina.

Bjos!

Bagunceiro disse...

Mari....que saudades de vc!!! Lendo esses posts seus me deixam um pouquinho mais pertinho de vc e eu fico pensando em coo foi bom nosso caminho ter se cruzado. Eu levei um pouquinho de você dentro de mim e sempre que penso em você sinto uma sensação boa, de felicidade mesmo! Não conheci a Marina que acreditava que os machucados ficavam no chão e que "grudavam" na pele, mas posso dizer que você é e sempre vai ser uma pessoa maravilhosa e que com certeza tem uma potencial enorme. Você precisa acreditar mais no seu TAco e sentir como as pessoas sempre vêem em você o que elas gostariam de ser: Uma pessoa de luz!!!
Te adoro!!!
Grande beijo...

Para aqueles! disse...

Falar o que sobre Marina? me sinto lisonjeado por palavras tão belas e por ter conseguido chamar a atenção desta menina mulher maluquinha! grato mais uma vez moça!