Quem vem lá?

domingo, 24 de maio de 2009

Efeitos e recordações


Certa vez estive em Campo Grande e na casa que fiquei tinha um cachorro. O nome dele era Thor. Não sei de que raça ele era, mas era bem magrelo, peludo e alto. O Thor vivia abanando o rabo e querendo atenção, mas ninguém dava. Até aí nada muito incomum prum cachorro. A questão é que ele me causava dó. Não sei explicar, mas só de olhar pra ele me dava vontade de chorar. Sei que era feliz, tinha comida, espaço, e um dia pegou todas as minhas calcinhas do varal e espalhou pelo quintal e até pela rua. Não tive coragem de dar um safanão nele. Uma manhã estava indo pra TV (fui pra lá fazer um estágio), toda prontinha, e o Thor veio correndo e pulou com as patas de lama na minha camisa branca. E eu, acostumada com o Tom Zé (meu cachorro, um boxer parrudo), empurrei o coitado do Thor pra longe, ele voou. Caiu todo espatifado e não parou de abanar o rabo. Talvez fosse isso mesmo que ele queria, uma reação minha. Porque mesmo a minha fúria seria melhor que indiferença. Logo ele, um cachorro tão belo, de raça. Tinha muitas qualidades, era amestrado, sabia dar a patinha, deitar, e era muito bonito, muitíssimo bonito. Acho que ele ficava revoltado de ser assim tão foda e ninguém dar muita atenção. Por isso ele pegava minhas calcinhas, pulava na minha frente e ficou feliz quando o joguei pra longe. Acho que ele se machucou, mas gostou da dor. Alguém o havia pegado de jeito pela primeira vez, nem que fosse pra jogá-lo contra a parede. Acho que ficou satisfeito.
Todo mundo foi viajar e eu fiquei sozinha com o Thor. Dava comida pra ele e expulsava-o dos cantos da casa onde ele não podia entrar, ele não gostava de limites. E me dava muita dó. Não sei por que, mas vendo-o pela janela sozinho, cheirando as coisas, indo atrás de qualquer pessoa que lhe dava o mínimo de atenção me causava muita pena mesmo. Durante essa viagem rolou uma das noites mais bonitas que eu já vi. Eu cheguei tarde em casa, e o Thor estava lá, olhando a lua. Sentei na varanda e resolvi lhe fazer companhia, ele estava calmo, menos afoito. Não pulou, não fez estardalhaço, nem exigiu minha atenção. E por isso mesmo eu tive vontade de ficar perto dele. Fiz carinho na barriguinha, tirei pulguinha... Ficamos ali contemplando a noite. Na verdade eu também me sentia sozinha. Nós aplacávamos ali, a solidão um do outro. E ele sabia ser uma boa companhia quando queria. Já de volta pra casa, lembrava sempre daquele cachorro, de como era deprimente vê-lo querendo chamar atenção, de como havia de ser injusto pra ele, que era tão bonito e engraçado. Soube que o Thor morreu, fiquei muito chateada, me bateu uma baita culpa pelo dia que o joguei pra longe. Mas lembrei também, da noite de lua que curti com ele. E acho que se ele ainda pudesse dizer alguma coisa, talvez ficasse um pouco ressentido do tombo que dei nele, mas é certo que admitiria que nunca houve um cafuné na barriga como o meu.




foto: Pablo Nabarrete.
A lua vista da janela do quarto dele, em São Bernardo. Linda e cheia, como naquela noite em Campo Grande...

5 comentários:

Aline Ahmad disse...

A lua está linda e adorei conehcer o thor através das suas palavras!

Talita disse...

Má, vc sempre assume um papel especial na vida de todos, até de um serzinho que apesar de bonitinho, não pensa. É verdade que ele deve ter partido dessa pra melhor agradecido dos bons momentos que passou contigo, apesar de ter se espatifado no chão.
É incrível como vc torna qualquer coisa aparentemente boba num texto delicioso de se ler.

Mil beijos. Amo-te.

MARCELO MENDEZ disse...

hahaha... MUITOOOOOOOOO BOM. O lance é que essa linguagem é complicada, meta-linguagem e é impressionante como vc flerta bem com quase todos os generos literários, faz isso brincando. A antítese do cachorro Thor, o nome "thor"... um super herói dúbio, o jeito como vc lidou com ele no texto foi genial. É como sempre te falo; Quando vc brinca de si mesma, fica irresistivel o que tu escreves...

beijo queridona

Talitah Sampaio disse...

Ai..que coisa mais linda...

tod mundo que teve você por perto teve sorte, mas o carinho na barriga é para poucos...e eu faço parte...uhuuuuuu

te amo

Mafê disse...

Me dá carinho? Me dá atenção? Preciso de você. Me faz cafuné? Joga bolinha pra mim? Hum... não?? Nem um pouco? Um tiquinho? Ah... tá bom. Tudo bem... ai, ai... Ei, o que é isso que você tá comendo? Hum... Huuuuum!!! Cheiro bom! Nossa! Que cheiro incrível! Especialmente espetacular! Dá um teco? Um tiquinho? Só um pouco? Não vai dar?? Não mesmo? Ah...então tá. Mas tem um farelinho aqui no chão, eu vou lambendo e aí já aproveito e limpo pra você, certo?
te amo, Mazinha!