Quem vem lá?

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A apneísta


Silêncio gera reações um tanto controversas. Aproxima, afasta, une, confunde, constrange. Em silêncio os pensamentos se exaltam e nos impulsionam a ações. Ou paralisam. Duas pessoas em lados opostos de um campo de futebol podem se ouvir se o silêncio for absoluto, ao passo que o mesmo silêncio tem a força de criar um campo de futebol entre duas pessoas a menos de um metro de distância.
Silêncio constrói e destrói pontes, dá chance pro acerto ou abre alas pro erro. Ficar à vontade em silêncio diante de outra pessoa é cumplicidade e entendimento, delícia poder poupar palavras. Mas às vezes elas faltam à boca enquanto falam alto ao coração e eu não conheço onde abaixa o volume.
A renúncia das palavras infla de poder os outros sentidos, olhos e mãos se procuram, ou entram num processo de repulsa, dependendo do motivo que afugenta a voz. Silêncio é o embarque para uma viagem interior. E a passagem é para um só. Tirar alguém dessa viagem só é possível se a vontade de voltar vier de quem partiu. Mais fácil quebrar uma pedra do que o silêncio. Não há força que o quebre. Silêncio às vezes pesa, sai do peito e vai embora com o choro. E chorar em silêncio antes de dormir é proporcionalmente alivi a dor quanto vomitar quando se está bêbado.
Não se deve temer o silêncio, muitas vezes ele mostra mais do que as mais belas palavras e em algumas situações é a única saída. Fraquezas e virtudes gostam de curtir um romance proibido no escurinho do silêncio. Ponderação dança com o orgulho enquanto o rancor une-se à vontade de dizer que amo demais alguém. Um grande baile da vassoura atrás de uma lona chamada silêncio. Sem música.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Das coisas que a gente fala e não tem nada a ver



Entrei no elevador, logo entraram outras pessoas, e, nessas situações, sei lá por quê, sinto uma constrangedora e irresistível vontade de rir. Na hora de sair, falei, vermelha e segurando riso:

-Obrigada!
E uma senhorinha, lá dentro:
- Magina, bem.

Fui embora pensando: “Ué, porque agradeci?? Por eles terem dividido o ar comigo?”. Nada a ver.

Numa outra ocasião, entrevistando um prefeito super sério pelo telefone, tratava-o por senhor o tempo todo. Conversa super formal. Na hora de desligar me distraí com um papo que rolava no msn, um amigo se despedia. Foi nesse momento que eu disse pro prefeito:

-Falou então querido, beijão.

Silêncio do outro lado.

-Pra senhora também.

Mão na testa. Noooossaaa, que que eu disse?? Nada a ver.

E quando a moça do pedágio deseja boa viagem? Eu quase sempre digo:

-Pra você também.

Por que boa viagem??... Eu na estrada e ela lá na cabine, viagem ali só se for de ácido, ela deve pensar ao despejar moedinhas na minha mão. Mas eu sempre corrijo, com sorriso amarelo:
- Quer dizer, bom trabalho. Hehehe.

E ela deve me achar muito, mas muito nada a ver.

De tarde, em casa, tocou a campainha e era um vendedor de rede. Abri a porta:
-Alô?
E ele, meio confuso:
-Alô, quer ver umas redes?
E eu, ainda sem me dar conta da cena nonsense que armara:
-Pode ser, quem é?
E ele, já arrependido de ter tocado minha campainha:
-É o vendedor.

Noossa, que que eu to falando? Muito nada a ver, comecei a rir e não conseguia parar. Acho que o homem das redes ficou com um pouco de dó.


São coisas que agente fala e só depois se dá conta, normalmente por distração, e que nesses casos, não trazem a necessidade de retratação. Falar sem pensar só é engraçado nesses casos, uma vez ouvi que é como atirar sem apontar.
Quando digo algo que diz respeito a mim, a sentimentos, meço muito bem, e respondo por tudo o que digo. Falar é atitude. E tem algo maior por trás, a intenção. Depois disso, a palavra, o beijo, o soco, o choro, são secundários. Não quer dizer que de vez em quando a porca não torça o rabo e eu me arrependa de alguma coisa que disse. Mas caminho e faço por onde para que minha mão só venha de encontro à minha testa por algum “obrigada” fora de hora, e não por algo que possa magoar ou ficar ecoando minha cabeça, até porque, nunca sei muito bem como voltar atrás, o que aliás, também não tem nada a ver.





segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Quando sobe o letreiro



A imagem é embaçada, como se houvesse um nevoeiro. Vou entrando por uma casa e gargalhadas são ouvidas de lá. Parada na porta o que vejo é dantesco: Uma sacanagem deslavada. E não há nada de erótico nisso. Uma suruba interminável, homens e mulheres formando uma grande macarronada humana. As pessoas usam máscaras, algumas com cabeças de bichos. São bisões, águias, cachorros e até galinhas. Penso em ir embora, mas sou sórdida e quero olhar mais um minutinho. Começo a gostar. Um pouquinho. A sensação é estranha: Algo meio nojento, mas que incita curiosidades e instintos mais recônditos. Como achar legal quando se aperta uma espinha e ela voa no espelho.
Cena seguinte: Estou numa arena. No centro, um homem em pé sob um tronco de árvore cortado. Uma multidão circunda esse homem baixinho e careca. Alguma coisa pega fogo por ali. O homem não tem o dom da oratória e eu vou dando as coordenadas afim de que ele subjugue a multidão. Falo coisas no ouvido dele, digo que ele tem que mostrar quem ele é, que ele devia dar uma lição naquelas pessoas. Ele se empolga, e eu trato de baixar a bola dele, digo que só comigo ele não pode, que a cara dele é se crescer pra cima de quem deixa e que por mim ele seria sempre dominado. Seria meu capacho, empregado, escravo, nada. Minha sordidez novamente se revela. Acordei atordoada. Em uma única noite fui voyeur de suruba e gerente geral do inferno.
Tenho visto muitas coisas, tantas realidades, tantas pessoas. A impressão que eu tenho é que vivi muitos meses só neste último. E não só isso, tenho vivido muitas horas dentro de uma, dias dentro de um. Isso tem me deixado à flor da pele (o que será que será), e tem uma razão de ser. É a minha vida de jornalista estimulando minha cabeça e me fazendo olhar de outra maneira pras coisas que me cercam. E isso é só positivo. Deixa de ser quando eu não consigo me desligar das muitas formas que vejo durante o meu dia e me afasto do que me mantém no lugar, no meu eixo. Quando eu vejo uma coisa que enche de cor o meu dia e outra que faria o diabo se arrepiar, e, antes de dormir, a segunda é que fica mais forte na minha cabeça. Tudo passa por mim quando o sono ousa se aproximar. Tento me concentrar, lembro de uma fita de relaxamento que eu tinha, tento rezar, tudo me dispersa.
Descobri que do alto dos meus quase 1.80m de altura, eu acordo com medo quando sonho que mando no capeta, e que, nessas horas, e em todas as outras, um abraço ameniza meus tormentos. Em meio ao turbilhão de informações a que venho sendo submetida, está muito bem guardado o que eu acredito, prova disso é que, observando a mega suruba do meu sonho eu pensei “que falta de romantismo”... Está guardado.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Janelas sempre abertas


- “Vive sua vida, faz a sua e não fica é... é....é... reparando nos outros, ta ligado?? Sumeeeeemo!!!”
Sabedoria... Não muito distante dali...Na praia do Sono, o seu Antônio, morando numa casinha de pau a pique, sabe o melhor vento pra jogar a rede no mar, que a água tem que estar fervendo bastante pra coar café no velho coador de pano e que a filha dele engravidou porque trepou. Um dia eu cantava uma música do Raul pro Seu Antônio, ele gostou e pediu pra ouvir outras enquanto escolhia feijão, coisa que, também, ninguém ensinou. Ele se ateve a uma frase que dizia “Pra ser feliz é olhar, as coisas como elas são, sem permitir da gente uma falsa conclusão!” Falou que concordava com o Raul e sobre a importância de ter os pés no chão e de cuidar da minha vida, discordou quando eu disse que às vezes me sentia egoísta quando pensava assim e debochou dizendo que era engraçado como eu não entendia nada. De como eu era capaz de discorrer sobre história, política, mas que não entendia nada sobre egoísmo. Em outras palavras, outro tempo, e num dialeto bem parecido com o de Fabiano, em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, ele me dizia: “Vive sua vida, faz a sua e não fica é... é... é... reparando nos outros, tá ligada? Sumeeeemo!!”
Tenho sonhado muito que estou sem roupa, me trocando na frente de obras, tomando banho com mais um monte de gente. Uma vez li num livro de significados de sonhos (nem só de Graciliano Ramos vive uma mulher) que isso reflete o sentimento de exposição. Paguei R$ 140 mangos e coloquei insulfilm no carro. Mas nem com todo dinheiro do mundo eu conseguiria colocar insulfilm nos meus pensamentos, no meu coração. Não sei esconder, fazer joguinho, e nem quero, não entro nessa. Eu queria falar pro Seu Antônio que hoje eu entendo o que ele me dizia, que ouvi a mesma coisa em palavras mais simples e num momento mais oportuno. E que nas minhas orações, desejo bom senso a quem se dedica a observar, confabular e cobiçar a vida que não é sua. Todo mundo tem em si uma coisa que não é infinita, é energia, há um estoque disso. Um dia acaba. Quem desperdiça energia com questões que não são suas, ou mesmo com questões que ficaram no passado, ou estão no futuro, pode se ver escasso de energia para quando essa realmente se fizer necessária.
Na mesma Praia do Sono, conheci um maluco que muito me intrigava, um sujeito jovem, porém cheio de estórias, gostava de conversar com ele. Um dia ele acordou e falou que ia embora, que era bicho solto, e que cairia na BR outra vez. Eu me emocionei porque criei afeição por ele. Comprei bolinho de aipim para sua viagem. Ele chorou e contou que há muito não chorava. Falou pra eu não me enganar com tipos como ele. Que era pura casca, para pouco o que guardar. Achei triste alguém fazer essa idéia de si mesmo, mas ele continuou, disse que eu era o contrário. Muito o que guardar e nenhuma casca. Nunca mais o vi. Queria dizer a ele que continuo pela vida assim. Que não pretendo mudar ainda que isso me custe algum engano e que tenho casca sim. Uma fica no pé, logo abaixo do dedo mindinho, a outra fica no coração, se chama amor, ilumina meu caminho, me protege, e esse sim, é infinito. Sumeeeemo!!!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Eu acho é pouco




Olha essa tua situação de agora,
esse contexto em que tu está inserido agora,
olha esse mundo a tua volta agora
HOJE é um bom dia pra se revoltar.
De todos os dias do continuum,
HOJE é o melhor dia para se revoltar,
o DIA FUNDAMENTAL da sua revolta.
Lance um ou mil atos de concussão
nesse monólito de palhaçadas que te cerca,
fogo nesse circo AGORA.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Um dia iluminado


Hoje é um dia iluminado
não de luz elétrica
e mesmo se o céu é nublado
brilham os olhos que se olham
claros
evidentes
permanentes
a dois passos da vida
fora do corte da ferida
se range os dentes como alívio
vê as ruas um dilúvio
bater as portas
não é assim que se comporta
peço
não prometo
esqueço
não esqueço
hoje não tem data
hora marcada nem exata
não tem compromisso
e a vida é toda isso
com promisso
compro isso
se tivesse grana
mas não tenho gana
a vida se vive
uma vida eu tive
tenho
terei
viverei sabendo que tudo da vida
aproveitarei
acendo vela
olho pela janela
tantos que sabem e não sabem
vivem dentro da mesma panela
um dia
terei forças para mudar tudo
intensionada
farei o mundo
ficar mudado
andarei contigo, meu amor, de braços dados
porque hoje...É um dia iluminado.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Legião da Má Vontade



Olá, você ligou para Legião da Má Vontade. Para insultar alguém, tecle 1; Para ser insultado, tecle 2; Para uma boa peleja, tecle 3.
Piiii
Você teclou 1, deseja insultar alguém, aguarde um de nossos atendentes.
- Emerson falando. Boa noite.
- Boa noite o cacete.
- Ok senhor. Do que estamos falando? Canalhice, corneação, dinheiro emprestado e não pago, zica generalizada?
- Corneação.
- Ok senhor, anote o número de seu protocolo. 7171. Quer xingar alguém ou a mim mesmo?
- Primeiro minha mulher.
- Estou ouvindo.
- Aquela filha da puta não tinha nem os dentes quando chegou aqui. Paguei tudo! Silicone, lipo, depilação definitiva. Depois peguei ela com o jagunço do motorista.
- Era negão senhor?
- Sim, como sabe?
- Imaginei. Continue.
- Agora a desgraçada quer pensão, metade de tudo. É ou não é uma vaca?
- Sim, é uma vaca senhor. Uma pervertida. Sacana, imoral. Mais alguma coisa senhor, deseja me xingar um pouco?
- Não sei...
- Fique à vontade, estamos aqui pra isso.
- Hummm... Babaca.
- Legião da Má vontade agradece a sua ligação. Tenha uma boa noite.


- Piiiiii
- Você teclou número 2, deseja ser insultado, aguarde um de nossos atendentes.
- Ellen falando, em posso ajudar filho da puta?
- Bom, eu tenho um cargo público, andei mais sujo que pau de galinheiro, mas disse por aí que não tenho nada a ver com isso.
- Já sei, é político né, escroto?
- Pois é, empreguei minha família, desviei grana pública para a associação gerida por meus parentes, agora querem que eu me afaste do cargo.
- Entendi seu puto, e estou te reconhecendo. Você fez atos secretos?
- Sim e demiti muita gente que só soube mais tarde. Eu tinha um motorista contratado por oito mil reais. Sou um canalha.
- Mais que isso você é cara de pau, dissimulado, um sem vergonha.
- Isso, continue, por favor.
- E tem mais, teu bigode é péssimo e já saiu de moda há muito tempo. A puta da sua mulher nunca disse que é nojenta essa buceta embaixo do seu nariz?
- Não.
- E a puta da sua mãe?
- Também não.
- Então eu te digo. Você é mau caráter, constrange o senado, o País, é feio e deve ser brocha.
- Obrigado Ellen. Acho que por hoje é só. Mas fiquei nervoso, gostaria de xingar um pouco também, toda essa pressão me deixa estressado.
- Tudo bem, mas o senhor precisa ligar de novo e apertar o número três.


Piiiii
- Você teclou 3, deseja uma boa peleja, aguarde um de nossos atendentes.
- Kátia boa noite, e aí cabaço?
- Estava falando com a Ellen.
- Pau no seu cu, agora fala comigo otário.
- É.... eerrr... Estou um pouco constrangido em pelejar com uma mulher.
- Vai chorar, cuzão?
- Aí também não, eu sou cabra macho do Maranhão minha filha, você não tá ligada, mando te matar.
- Vê aí o que você pode fazer trouxa.
- Sou dono do Maranhão inteiro.
- Pau no seu cu.
- Sua proletária, fica aí nessa vidinha honesta atendendo telefone o dia todo, babaca.
- Vai por inferno.
- Eu vou mesmo, o capeta é meu aliado.
- Fala pra ele comer sua bunda então.
- É... é... é... sua puta.
- Mais alguma coisa senhor?
- Não, só isso, to super aliviado, muito obrigado Kátia.
- Legião da Má vontade agradece a sua ligação. Tenha uma boa noite.