Quem vem lá?

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Unhas vermelhas


Pintei as unhas do pé de vermelho para não os perder de vista. Para não confundi-los com o chão e me distrair pelos caminhos onde ando. O caminho é o mesmo, assim como meu jeito de andar, mas se hoje pinto as unhas de vermelho você não vê. E se aparo a franja ou resolvo colocar meu vestido mais surrado para dançar Roberto Carlos no meio da sala, não é mais para ganhar reconhecimento da solitária platéia. Aí me pego na tentação de achar que as coisas não tem a mesma graça se você não vê, se você não está ali pra achar graça, pra achar tosco, pra me achar. Porque eu mesma, quase já não me encontro.
Falta alguma coisa no fim da minha mão, do outro lado do telefone e no porta-retrato. Não faltam motivos pra lembrar com saudade de tudo que foi e não volta, lembrar com carinho, com perguntas que inundam a cabeça de desespero... E se, e se, e se... Lembrar com raiva e alívio por algumas coisas perderem, de fato, o caminho de volta.
Questiono o sentido da saudade. Porque a palavra dá alusão alguma coisa que sentimos falta e queríamos que estivesse aqui. Agora. Que nome dar então para quando sentimos falta, sentimos amor, lamentamos a ausência, mas ao mesmo tempo um espasmo de lucidez nos faz acreditar e aceitar que a distância é a melhor solução... Que o caminho afunilou de tal maneira, e que você foi passando e lacrando cada saída mais sensata, tal qual um bingo clandestino, até que não lhe restou mais saídas a não ser seguir por um caminho estreito demais para dois.
Aí eu passo por essas noites de calor, ouvindo as músicas que sempre ouvi, olhando a mesma vista cortada pelas grades da minha janela, e peço ao tempo, à primeira estrela, a Deus, que me traga bons motivos, e que essa brisa que vem e me acalma possa estar também em seu rosto... Que traga a sensação de um amor que está acima das coisas mundanas, da cerveja a mais, da palavra ferina, da sacanagem ao pé do ouvido. E que possa entender o sono profundo a que foi submetido, para que não perceba e não sofra a minha saída pela porta a passos leves de manhã.

Ps: Janelas de Marina adota, a partir desse post, as novas regras de ortografia.

4 comentários:

Rafael Morpanini disse...

Você leu meus pensamentos e colocou num texto...ai ai ai

Talita disse...

Má, textos cada vez melhores... Vc tem o dom de transformar sentimentos em palavras como poucos.
Esse é um pouco triste. Mas tão verdadeiro. Adoro tudo o que vc escreve, até quando eu tenho certeza que vc chorou escrevendo. Já vi isso. É foda. Mas é bonito!! rsrs você inspira.

Beijos, amo vc

MARCELO MENDEZ disse...

então... antes de qualquer omentário maisss literário, isso é talvez as tuas mais belas letras que ja li mas dispardoooo. Acá as emoçõs jorram e tem um lance em literatura que sempre digo que é o seguinte; Da lágrima que mais dói, sempre é aquela que ao invés de corer o rosto vira letra... Acho que isso sintetiza bem o que acaberi de ler...

Métrica perfeitinha, construção deliciosa e ótima parafrase com o lance das unhas do pé mas ante a tudo que li e snti essa análise é bobagem...

beijo e te adoro

Nanda Leone disse...

Eu não chamaria de "saudade".
Chamaria de "sentimento de perda".
Bjos, minha linda!
E se cuida!