Quem vem lá?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Bigorna nossa de cada dia


“Ele faria da queda um passo de dança,
do medo uma escada
do sono uma ponte,
da procura, um encontro”

Se tem um livro que me marcou demais foi “O Encontro Marcado”, do Fernando Sabino. Foi uma dessas delícias de obra que a gente fica com pena de terminar de ler e tem saudade das personagens.
Quando li passava uma temporada num lugar que significa muito pra mim, a Praia do Sono (saudade louca... Do lugar? Do que eu era... enfim). Depois da última página fechei o livro, fiquei em silêncio um tempão. Olhei o pôr do sol e tive uma emocionada crise de choro. Tinha a impressão que falava sobre mim, sobre as possibilidades que a vida oferece, as mudanças, sobre coisas que em determinados momentos nos valem ouro e que depois não queremos nem de graça (e vice-versa), sobre o valor das amizades e também da nossa inevitável falta de controle diante de alguns acontecimentos.
É a estória de um cara em desesperada procura de si mesmo e da verdadeira razão de sua vida. Quase absorvido por uma brilhante boêmia intelectual, seu drama interior evolui subterraneamente, expondo os equívocos que frustravam sua existência e sufocavam suas vocações. É uma estória linda que trata de prazeres fugidios, desespero, cinismo, desencanto, melancolia e tédio, que se acumulam no espírito de um jovem escritor que amadurece num mundo desorientado.
Gostaria muito de reler esse livro, presente de uma criatura que amo com tudo que posso (pois só assim sei amar), mas depois de cumprir sua missão de me fazer experimentar sensações incríveis, o pobre livro acabou desfolhado numa poça de água da chuva, dentro da minha barraca.
Num momento da estória, a personagem principal - o escritor Eduardo Marciano - acumula uma série de cagadas pela vida e vai conversar com um padre, pedindo uma solução para aliviar-se da culpa que sentia. E o padre dizia algo como “meu filho, se houvesse um remédio pra culpa todo mundo ia querer.” E sendo assim Eduardo seguiu pela vida levando o peso da culpa por coisas que ficaram no passado e que não poderiam ser mudadas.
Assumir-se culpado é como renunciar à reflexão e à evolução. É como se tudo se resolvesse num rótulo: “culpado” e acabou a conversa. Melhor que isso só com “desculpa”, aquela palavrinha mágica que desfaz a culpa.
Recurso muito usado por irresponsáveis é assumir simplesmente que tem culpa. E não se coloca no lugar do outro, não aprende, se arrepende, não muda, não cresce. Quem culpa os outros também sofre a mesma anestesia. A batata quente vai para a mão seguinte e pronto. Evita-se assim o desgaste de pensar nos próprios limites, no que planta e no que atrai pra si dia após dia.
Culpa é invenção da igreja católica, auto-punição pra quem não se sente capaz ou não tem vontade de mudar sua realidade e precisa aplicar o peso de suas atitudes em qualquer coisa que não seja seu coração.
Mas assim como na vida de Eduardo, o Grande Encontro acontece, cada um com sua verdade. Hoje escrevi verdades em um jornal que amanhã vai virar forro de gaiola, e aí eu vou escrever outra. Porque acho possível que ela mude. Ainda bem. Senão quem estaria presa em gaiolas junto com minhas verdades seria eu.

5 comentários:

Joana disse...

Quanto mais culpas, mais pesada a bigorna, né não?
Lindo texto Má!
Não carrego culpas...sinto, reflito, jogo fora assim que possível!

Renan Fonseca disse...

queria dedicar algumas palavras para descrever o que sinto todas as vezes que você passa...e não percebe que noto você. queiria dedicar algumas respirações para mim quando isso acontece, pois todos os suspiros me são retirados por você...quando passa....queria dedicar algumas horas ao seu lado, sem ninguém por perto, para dedicar alguns sentimentos...

Talita disse...

"Senão quem estaria presa em gaiolas junto com minhas verdades seria eu".
Marina, marina, marina. Fiquei pensadno nessa frase o dia todo. Eu fico muito de cara com o jeito que vc transforma tudo em palavras, em belas palavras. Esse aí entrou pro meu ranking de "textos preferidos de janelas de marina".
Meu coração ficou até meio disparado. Obrigada Má, por me colocar em contato com sua sensibilidade através das suas historiaS.
Amo muito vc, quanto talento, porra, amo muito vc marina nabarrete bastos.

Carol disse...

Já li esse livro, é muito bom. Texto forte, podia ser pesado, mas não ficou pq vc sempre tem esse jeitinho marina de falar o que quer. Conta uma historinha, da uma rodeadinha e qdo a gente vê, cadê nossa mente? foi comida por mazinha hahaha. E sempre pro bem, sempre pro bem.
bejokas amore mio

Alessandra Rossi disse...

Que lindo esse texto. Que leitura gostosa. Parece uma música "lida". Parabéns. Ao contrário do personagem do livro, sinto que vc não se distraiu da própria vocação. Vou add na minha lista de blogs, no meu blog. Abraço.